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Parte X : Ilusões e Recompensas Psicológicas e Organizacionais na Umbanda e Quimbanda

Nessa parte, vamos mergulhar na complexidade da mente humana e como ela busca sentido e recompensa em meio de dúvidas e desafios. Revelaremos a sedução das gratificações imediatas e a dependência psicológica que podem surgir de tais sistemas de crenças. Desvendaremos como fenômenos ilusórios e a busca instintiva por coerência podem obscurecer nossa percepção da realidade. E, finalmente, examinaremos como a atmosfera de celebração, a promessa de resolução de problemas, os laços que criamos com as supostas entidades espirituais assim como o bem estar que proporciona as incorporações podem se tornar um vínculo poderoso que nos mantém aprisionados em sistemas de crenças, apesar de nossas incertezas.

A necessidade de Coerência

Como seres humanos, temos uma necessidade intrínseca de coerência em nossas vidas. Quando estamos imersos em um sistema de crenças, procuramos ativamente coerência, mesmo quando as mensagens que recebemos não se alinham com a realidade.

Nas consultas, durante as giras, podemos questionar a suposta entidade para obter mais informações. As respostas geralmente são algo como "Ah, você não pode compreender, o mundo espiritual é complexo". "va acontecer, tem paciência" "Não é porque você não vê, que não acontece", etc.... Aparecem todos os tipos de desculpas possíveis.

 

Isso, de certa forma, satisfaz as pessoas e as mantém no sistema, apesar das inconsistências.

Essa necessidade de coerência é, em grande parte, motivada por um fenômeno conhecido como dissonância cognitiva, que ocorre quando temos crenças ou atitudes conflitantes. Para reduzir a tensão que resulta dessa dissonância, as pessoas frequentemente procuram explicações ou justificativas que lhes permitam manter suas crenças atuais, mesmo quando são confrontadas com evidências ou experiências que as contradizem.

 

Fenômenos ilusórios  : Como as nossas crenças podem enganar

Nossas crenças e expectativas exercem um impacto poderoso sobre como interpretamos a realidade. Nesse contexto, podem gerar interpretações distorcidas.

 

Além disso, a vasta gama de fenômenos mediúnicos ilusórios que podemos experimentar é tão grande que, por si, precisaria um espaço substancial para discussão. Entretanto, farei o possível para dedicar um trabalho mais detalhado a esse tema no futuro. Essa reflexão é essencial para discernir os verdadeiros fenômenos mediúnicos daqueles que são frutos de nossas próprias projeções e ilusões.

Por exemplo, se experimentamos uma melhoria em uma situação particular após a intervenção de supostas entidades superiores, podemos erroneamente creditar essa resolução exclusivamente a tais entidades, negligenciando outras possíveis causas para a mudança.

 

Exemplo das Dificuldades Financeiras

Para ilustrar como nossas crenças podem moldar nossas percepções, vamos considerar um exemplo da vida cotidiana. Suponhamos que você esteja enfrentando problemas financeiros e peça ajuda a uma entidade. Depois de algum tempo, você consegue um emprego melhor e, então, atribui essa melhoria à intervenção da entidade.

Contudo, é também possível que essa melhoria tenha acontecido por outros fatores, como a sua própria determinação em buscar um trabalho melhor ou as suas habilidades que foram aprimoradas, gerando mais oportunidades de emprego. Ainda assim, devido à sua crença na intervenção da entidade, você pode interpretar a mudança como sendo diretamente causada por ela, ignorando outros possíveis fatores.

 

O Efeito Barnum ou Forer: A Universalidade das Experiências Humanas

Esse é um exemplo de uma percepção ilusória, demonstrando como nossas crenças podem nos enganar. Esse fenômeno é muitas vezes referido como o "Efeito Barnum ou Forer", uma tendência que temos de reconhecer descrições vagas e gerais como aplicáveis especificamente a nós mesmos.

Embora possa ser confortante acreditar que a entidade teve um papel direto em sua melhoria, essa crença pode impedir que você veja a realidade completa, incluindo o seu próprio papel e o de outros fatores em sua melhoria. Assim, é essencial questionar nossas crenças e permanecer aberto a diferentes perspectivas para evitar cair nas armadilhas das percepções ilusórias.

 

Recompensas psicológicas : Um caminho cheio de tentações

A umbanda e a quimbanda especialmente são cheias de recompensas.

Um sistema cheio de recompensas imediatas é um sistema que oferece gratificações instantâneas para estimular e reforçar o engajamento contínuo dos participantes, o que pode, eventualmente, levar a uma forma de dependência psicológica.

 

A Quimbanda por exemplo oferece muita recompensas imediatas que podem ser incrivelmente sedutoras e pode se tornar uma fonte constante de prazer e gratificação, não apenas pela sensação de bem-estar proporcionado pelo transe mediúnico, mas também pela promessa de solução de problemas e revelação de futuros feitas por supostas entidades. Acreditando que estas entidades podem resolver suas questões e prever o futuro, os praticantes se sentem imediatamente aliviados e seguros.

 

Sem me dar conta, o sistema em que me encontrava oferecia recompensas psicológicas imediatas. Essas recompensas conduziam à liberação de hormônios que produziam uma sensação de bem-estar. Esse sentimento de prazer e alívio se torna particularmente intensificado quando nos convencemos de que uma entidade está pronta para solucionar nossos problemas e nos proporcionar uma visão do futuro. Essa dinâmica cria um forte vínculo psicológico e induz a uma experiência de êxtase que pode ser comparada àquela proporcionada por algumas substâncias psicoativas.

 

Dessa forma, os praticantes podem se tornar 'viciados' nesses eventos, desenvolvendo uma dependência psicológica desse sistema de recompensas.

 

Recompensas psicológicas combinadas com certas estratégias organizacionais

Esses mecanismos de recompensa tornam-se ainda mais poderoso quando combinados com certas estratégias organizacionais, como as que observei no centro de Umbanda que eu frequentava. Nesse centro, para poder participar das giras de esquerda, era necessário um número mínimo de participações nas giras de direita. As giras de esquerda, que aconteciam apenas uma vez por mês, eram vistas como mais prestigiosas e atraentes, devido à sua raridade.

 

Esse sistema aciona um fenômeno conhecido como psicologia da escassez, em que as pessoas tendem a valorizar mais o que é limitado ou raro. Nesse caso, as giras de esquerda se tornam um tipo de "recompensa" desejada, reforçando ainda mais o compromisso com a prática.

 

Com o tempo, essa dinâmica pode levar a uma espécie de dependência. As pessoas podem se encontrar cada vez mais envolvidas na prática, buscando repetidamente essas experiências gratificantes, mesmo quando as mensagens das entidades não correspondem à realidade. Isso acontece porque a experiência em si - a sensação de bem estar que proporciona a incorporação, a sensação de alívio, a antecipação da gira de esquerda - se torna uma fonte constante de satisfação.

Portanto, é possível que o sistema de recompensas na prática da Quimbanda possa levar a uma forma de dependência psicológica, na qual os praticantes buscam continuamente essas experiências gratificantes, apesar de possíveis inconsistências com a realidade.

 

Além de todas as recompensas já mencionadas, a Quimbanda possui outro elemento que torna a experiência ainda mais atraente: a atmosfera de celebração. As giras são eventos animados e alegres, onde as risadas são frequentes e o ambiente é de festa. Esta atmosfera festiva adiciona um elemento de diversão à prática, tornando-a ainda mais atraente.

 

Além disso, é notável que as supostas entidades podem se expressar de maneira ousada, por vezes com uma linguagem de conotação sexual. Isso, longe de ser repulsivo, é na verdade bastante estimulante para muitos participantes. A expressão franca e desinibida de temas sensuais e eróticos serve como mais um elemento sedutor da prática, acrescentando uma dimensão adicional de prazer e excitação. Essa linguagem audaz e provocante, repleta de insinuações, pode acentuar a atração para a prática da Quimbanda, encorajando uma adesão ainda maior.

 

Essa combinação de recompensas imediatas juntas, tornam a Quimbanda uma experiência extremamente atraente. Todos esses fatores trabalham juntos para estimular e reforçar o engajamento contínuo na prática, contribuindo a desenvolver uma forma de dependência psicológica. Assim, a Quimbanda, com todas as suas recompensas e estímulos, se torna uma fonte constante de prazer e satisfação.

 

Combinadas com tantas outras forcas em jogo

A Identidade Única do Médium: Reforçada pelas Narrativas Espirituais - A identidade da entidade do médium desempenha um papel importante. O médium, sentindo-se diferente ou único, pode ter essa percepção reforçada pelas histórias contadas e pelas interações com as entidades espirituais. Essas experiências, ao serem interpretadas e contextualizadas pelo líder espiritual ou pela comunidade, podem fortalecer a identidade do médium e intensificar o seu compromisso com a prática.

 

O Desejo Inerente de Pertencer: Compreendendo o Poder da Necessidade Social - Pertencer a um grupo oferece um senso de identidade e autoestima.

Um aspecto notável que observei durante minha experiência é o papel do status social na comunidade. Em muitos casos, os indivíduos que se sentem desvalorizados ou excluídos em outros contextos da vida podem encontrar nessa comunidade um espaço onde podem obter um status e uma posição social que não possuem em suas vidas cotidianas.

Essa busca por aceitação e reconhecimento muitas vezes reflete o nosso desejo inerente de pertencer.

Este desejo de aceitação e reconhecimento nos leva a conformar-se às crenças e comportamentos valorizados pelo grupo, mesmo com reservas, reforçando a sua permanência na comunidade.

 

A Força do Pertencimento e Valores Compartilhados. A sensação de partilhar valores e crenças comuns com os seus membros, pode ser extremamente atraente. Esse sentimento pode criar laços fortes que nos motivam a permanecer, mesmo quando enfrentamos dúvidas. É o valor que atribuímos a essa conexão única e à comunidade que encontramos, que pode nos incentivar a permanecer, apesar de eventuais reservas.

 

O Medo do Isolamento e do Julgamento: Como a Ansiedade Social Pode Reforçar Nossas Convicções - Indivíduos podem temer o julgamento ou rejeição caso expressem dúvidas, preocupações, ou decidam abandonar uma crença ou prática. Essa ansiedade social pode reforçar o compromisso de um indivíduo com uma crença ou prática.

 

Inércia e Rotina: A Força do Hábito em Nossas Escolhas de Vida - Às vezes, os indivíduos permanecem em uma prática ou crença simplesmente porque estão acostumados a ela. Especialmente se investiram muito tempo e energia, a ideia de "perder tudo" pode ser desencorajadora o suficiente para prevenir mudanças ou a decisão de abandonar a crença ou prática.

 

O Apego às Entidades Percebidas: Uma Força Adicional no Compromisso - O apego percebido a entidades espirituais pode desempenhar um papel significativo na manutenção do compromisso de uma pessoa com a prática. O medo ou a relutância em decepcionar essas entidades pode, por vezes, aprofundar a aderência de um indivíduo à prática, mesmo quando surgem dúvidas ou preocupações.

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